corrente

linhas oriundas da periferia do mundo

comendo veneno pra deixar eles ricos

esse é o querer que eles te impuseram 

pesquisador da rua investigo e verifico

a corrente no pescoço abriu os caminhos

desculpa mãe, elas querem dar pra bandido

motivo mais que suficiente pra ser envolvido

essa mina é enigmática, parece um oráculo

acho que essa não me deixaria no vácuo

canetando as paredes da casa e até a geladeira

é bom ter licença poética pra falar besteira

colhendo os frutos de ter nascido nesse lugar

é foda, mas não consigo parar de pensar

que aprendi mais com os crias que na escola

meus parentes e aqueles que tão na endola

um cria coroa cascudo me passou a visão

disse que eu não era bobo por ser quieto

então percebo que em mim há algo de vilão

pisquei e a bandida tá comendo na minha mão

mas agora tenho maldade pra manter o pé chão

pensamento acelerado por natureza

beirando a dislexia, pulando as letras

o fluxo torrencial está chegando, dilúvio

foi pra isso que me botaram nesse mundo

um salve pra rainha que fez isso

aprendo tanto revendo minha jornada

escritor marginal tá piando na quebrada

linhas que redimem as profundezas da alma

vemos a violência ao vivo vertendo a vingança

colhemos saberes da ciência à clarividência

a inocência dos crias morre precocemente

enquanto você até morrer vai ser inocente

nunca me adequei a educação formal

pra nós a violência foi a educação

meu encontro com ela foi crucial

nain é fruto dessa junção

fez nascer o eu lírico criminal 

vejo a escola como poderosa se for só metáfora

já que a real não me ensinou o que eu precisava

escrever isso aqui é trabalho educativo

o artista bandido também é envolvido

pega a visão do duplo sentido 

minha trajetória já diz tudo

e tu não muita coisa sobre mim

então se ponha no seu lugar

já estive no fundo do poço sem fim

eu tenho propriedade pra falar

eu vi um homem atirando numa criança

mas agora vou deixar de ser autobiográfico

pra isso aqui não ficar mais pesado

e inauguro meu eu lírico criminoso

pra tu entender que tá tudo misturado

viver certas coisas te deixa marcado

eu circulei por contrastes na trajetória

isso deixa única a minha história

me faz ter outro ponto de vista

pois de vi de perto a podridão humana

que vem daquela camada pra cima

são orgulhosos de serem racistas

não me contaram amigo, eu vi

o que ouvi deles nunca esqueci

e agora eu sinto ódio deles

e agora eu quero matar eles

e pra entender tem que sentir

liberdade lírica lavando a alma

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